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Maria Teresa

Passo a passo é um passo para a alma...

Crónica de Rodrigo Guedes de Carvalho: Pagar para trabalhar


Percebo as manifestações, mas fica-me sempre a ideia de excesso de palavras de ordem, o que normalmente significa muitos tiros e pouca pontaria. Os alvos, sobretudo, parecem--me mal escolhidos. Bem sei que a famosa troika será o mais fácil, mas também, porventura, o que menos culpa tem. Disse--o e repito-o. A troika veio cá dar ordens e palpites apenas porque o País chegou a uma situação insustentável. A troika não pediu para vir, foi chamada. Parece-me facto indesmentível. Outra coisa totalmente diferente é o que a troika nos exige para continuarmos a ser dignos de ajuda. Que era preciso cortar em muita coisa sempre me pareceu óbvio, e pena é que tenhamos de ter atingido um ponto de ruptura para se pensar nisso. Como é óbvio que, para entramos num novo paradigma económico, para passarmos a um novo estilo de vida, mais perto de gastar apenas o que se tem e não viver a crédito, está visto que muitas das austeridades a que estamos a ser chamados vieram para ficar, ou seja, desconfio muito que sejam apenas sacrifícios passageiros até a economia se endireitar. Até porque está visto que os portugueses, como a maioria dospovos latinos, esquecem depressa que têm de manter a disciplina assim que ouvem os primeiros sinais de abrandamento do garrote, que é como quem diz, assim que percebem que as coisas começam a melhorar um nadinha. Esse será, de resto, o grande desafio para o futuro, e muito em breve: continuar um programa de austeridade responsável que nos permita cada vez menos depender de outros, mesmo quando a economia recuperar uma melhor saúde. Mas dizia eu que uma coisa é a troika ser chamada cá, outra é a dimensão do que nos exige para demonstrarmos que aprendemos a lição. Não sabemos exactamente como decorrem as reuniões, muito menos o que realmente é dito, defendido, e em que tom, mas fica-nos sempre, a cada avaliação a que somos sujeitos, a ideia de que nunca faremos exactamente o que querem, sobretudo que nunca vamos tão longe quanto desejariam. Ou exigem, para dizer melhor. A verdade é que troika parece insaciável, dá a ideia de um rei entediado, nunca verdadeiramente satisfeito com os seus súbditos. Tem sido assim com inúmeras matérias, mas realçaria as questões do trabalho, seja a facilidade com que pretendem que seja possível despedir em Portugal seja com as exigências contínuas de baixa dos salários. O Governo já anunciou, quanto a mim, transformações significativas, para não dizer brutais, na legislação com que vivemos há décadas. Já vêm aí novas contas para os despedimentos, que ainda por cima têm sido sucessivamente revistas, uma e outra vez, e sempre no sentido que defende a troika: é cada vez mais barato despedir. Podemos, e devemos, admitir que a nossa legislação na matéria, nascida dos entusiasmos do 25 de abril, será já desfasada da realidade de uma economia competitiva. Mas há que ter o cuidado de não se passar do oito para o 80. E o que troika insistentemente nos exige é, de facto, um empobrecimento rápido, progressivo e definitivo de grande parte da população trabalhadora, leia-se, daqueles que vivem realmente, apenas e só, do seu trabalho. A continuarmos assim (e apesar de alguns protestos, a coisa vai andando...), viveremos numa realidade em que é praticamente impossível pensar em ganhar muito, impossível sonhar com aumentos que se vejam quando trabalhamos melhor que os outros, e ainda com uma espada em cima da cabeça: o patrão poderá facilmente despedir-nos porque isso lhe custa cada vez menos. Vejo alguns economistas defender este estado de coisas, argumentando que as dificuldades para despedir sempre foram o maior entrave à nossa competitividade. Curioso. Sempre pensei que um verdadeiro entrave à competitividade fosse, tantas vezes, a falta de imaginação e criatividade, e de capacidade de trabalho de muitos empresários. Até porque (curioso, mais uma vez...) as grandes empresa que fazem a diferença, que se renovam, reinventam e se mantêm na frente, são normalmente empresas que pagam bem, que estimam os seus funcionários, sabendo que quem é bem tratado corresponde com dedicação, amor à camisola e, em consequência, um trabalho cada vez melhor, sem olhar a horários. Mas isto sou eu, que não sou economista, e não percebo nada disto. Se acham que nos vamos tornar melhores a trabalhar por um prato de sopa e sempre cheios de medo de ser despedidos, avancem. 

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